Pausa no calor e fim na loucura

Os dias longos contados por bandejas organizadas, comprimidos e temperaturas sempre normais passaram, junto com os dias distantes das coisas da vida normal, que agora recomeça, pós-transplante, que envolve sempre as palavras: cuidado, alimentação e cuidado na alimentação. Voltam os exames a cada três ou quatro dias. As veias castigadas reclamam mas não resta muito o que fazer. Ela tem certeza que qualquer coisa é melhor do que observar o mundo de longe - as vidas acontecendo através da janela que ninguém vê - Dois dias antes da alta raspou os cabelos. Guardou uma mecha dos bravos fios tingidos. De volta a morenice ainda sente falta de ter o que arrumar na cabeça. Não colocou nenhum lenço por achar que ainda tem muito cabelo - acreditem, qualquer cabelo é muito numa situação dessas.
Apesar dos planos que tem mente, e coisas que acumulam para serem terminadas - como uma pilha gigante de papéis em pastas coloridas, fora de ordem e geralmente amassadas quando ela perde a paciência. Mas tudo fica mais fácil com uma medula.

Os encontros na recepção são regados por histórias estranhamente iguais e isso traz de volta o que também pensou querer esquecer. Mas se pergunta como pode querer esquecer de algo que já faz parte dela a tanto tempo. Deixou de ser apenas uma fase, há muito tempo. Queria que fosse diferente. Mas essas coisas não se escolhem, elas acontecem.
Ouvindo as histórias, deixam de ser apenas mais um paciente com uma história comovente, tornam-se companheiros silenciosos, desconhecidos. Concluiu que a dor pode mudar as pessoas, aproximá-las. Pode ser o caminho mais difícil para se perceber o motivo pelo qual estamos aqui.

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Uma pausa no calor que todos os dias lembrava a terrinha. O calor na subida da ladeira para tomar a antiga amiga Granulokine ou fazer os exames de costume. Leucócitos oscilantes e paciência inexistente. Diagnóstico: perfeitamente normal.

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Acontecimento bem lembrado:
Poucos dias antes da alta, passeava pelo hospital... recepção, escadas da superintendência e lugares sem pessoas, porque ela está com a máscara do porco. A pior de todas. Põe o robe vermelho, respira fundo e dicide que o melhor lugar é o andar intermediário. Onde ficam o piano bonito que sempre está fechado, o restaurante e a capela que ela não frequenta. Mas tem um espaço ao ar livre. Para passeios de pessoas que não podem andar e comida que a maioria alí não pode comer. Era o melhor lugar livre de cochichos, olhares vigilantes e ar refrigerado. Ela estava com o os dois irmãos. Resolveu andar na muretinha que serve de banco, além dos bancos de costume. Parecia um caminho bonitinho de se fazer. Ela se diverte até que aparece o moço careca de paletó. Ele usa um radiozinho barulhento e a manda descer. Por favor, é claro.
Ela desce e se pergunta se ele a mandou descer por ser apenas um lugar perigoso ou por pensar que ela poderia dalí pular para a outra parte e finalmente se jogar do prédio. Pode parecer delírio mas esses pensamentos são mais frequentes em mais paciente do que você pensa. Isso explica as janelas que só abrem até dez centímetros.
Depois pensa que isso não faria muito sentido: Porque usar uma máscara contra infecções se você vai pular do prédio?
Então concluiu: o moço careca de paletó apenas queria um plantão limpo, sem ocorrências. Nada mais justo.

"Por isso não desfalecemos; mas, ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova de dia em dia. Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória mui excelente." 2 Coríntios 4. 16 e 17

Comentários

Felipe Matheus disse…
A menina dos desenhos ;)
HEINO MEIRA disse…
Eu queria ter uma filha assim!
Sei que não tenho nada a ver por aqui.. desculpa! Só estou passando pra escrever que estou feliz por você. Parece que as coisas parecem estar funcionando.
Enfim, um abraço. :)
Desculpa de novo.

Raphael
Aline Cavalcanti disse…
Oi Lary. Nem sei se você se lembra mais de mim... A gente começou na mesma turma da UFPE, mas eu vim morar em minas no segundo período. Aline,Cavalcanti, lembra? Tem muito tempo que silenciosamente acompanho sua luta e desde que eu fiquei sabendo peço a deus pela sua saude.Espero daqui pra frente as coisas se ajeitem. Um beijo e fica com Deus.
Fernanda Villas disse…
Sempre orando e torcendo por vc...

beijos!
Oii Lary, conheci sua história pela revista CAPRICHO e dês de então venho acompanhando seu blog. Vim dizer que te adimiro muito, pq como eu vc é uma moça guerreira, forte e percistente. Estamos em lutas parecidas, tenho 16 anos e pela terceira vez to fazendo quimioterapia por causa de um tumor no quadril e outro no pulmão.
Se vc quiser, me adicione no msn (franzinhasnunes_@hotmail.com) pra conversar-mos mais. Estarei orando e torcendo por vc sempre. Fica com Deus e td d bom. Bjo!
Anônimo disse…
Então Pedro lembrou do que havia acontecido e disse a Jesus: - Olhe, Mestre! A figueira que o senhor amaldiçoou ficou seca.
Jesus respondeu: - Tenham fé em Deus.
Eu afirmo a vocês que isto é verdade: vocês poderão dizer a este monte: "Levante-se e jogue-se no mar." Se não duvidarem no seu coração, mas crerem que vai acontecer o que disseram, então isso será feito.
Por isso eu afirmo a vocês: quando vocês orarem e pedirem alguma coisa, creiam que já a receberam, e assim tudo lhes será dado.

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