E a segunda saga da medula
Caros limões,
A segunda parte da segunda saga da medula chega ao fim. A sessão de doação de medula foi cheia de emoção e gritos de vergonha misturados aos dois comprimidos de Diazepan que tiveram o efeitos maravilhosos de trinta minutos. Passados quase três acompanhantes: Titia Kátia Melo, cheia de disposição para subir as ladeiras da Bela Vista, Aline, igualmente disposta a participar do meu projeto Bandeirantes e agora Ádla, que eu prefiro pensar que não subiu as ladeiras porque não estava comigo.
Vão-se as acompanhantes, fica a paciente e então Lolota versão chapeuzinho vermelho volta a viver intensamente o mundo dos hospitais, cheios de tênis nada esportivos, frasqueiras e um pouco de disposição. Toti, a medulinha, tem os momentos de quietude, que totalizam vinte minutos diários, os quais presencio esperando a hora dele explodir por causa do tédio. Ele tem se esforçado muito. Pergunte a qualquer hiperativo se ele consegue ficar 12 horas sentado no mesmo lugar, com canais de tv limitados, um lápis e bloco branco. Isso explica as brigas pelo notebook.
Enquanto isso acontece eu imagino que a medula hiperativa está boiando dentro de mim e não fica quieta até a "pega". Mas acho que isso não compromete todo o planejamento desse procedimento.
Estou internada há duas semanas e todo dia olho pela janela e tem um vizinho querido que num sacrifício enorme toma banho de piscina e só sai quando os raios e trovões diários começam.
>>Ana, a arrumadeira do flat e personagem importante da saga fala com Má,outra arrumadeira, sobre a chuva em São Paulo, com um sotaque do interior: -Má, hoje eu vou mais cedo, você viu a chuva que 'tá' caindo, Má? Nooooossa! E o pessoal ainda inventa de fazer protesto na chuva, Má. Eles conseguem tocar fogo no ônibus na chuva, Má. Só aqui em São Paulo. Eles tocam fogo nos ônibus e culpam o prefeito pela chuva, vê se pode? Aí eu tenho que descer umas paradas antes e passar pelos trombadinhas, mas eu não gosto de chamar assim não, eles não são trombadinhas... só gostam de fazer umas coisas erradas de vez em quando.
Quando estava no metrô, Aulo, que está aqui há algum tempo contava como essa cidade é louca - Depois de um tempo aqui, você se acostuma, até acha que é um lugar comum. Mas aí acontece alguma coisa que te faz lembrar que vocâ está errado. E eu tenho uma sorte com essas coisas. No caso dele tinha sido um rapaz com intenções suicidas perto dos trilhos do metrô.
...
Foi doloroso reviver o lugar que eu queria esquecer. O quarto é idêntico, mas a pessoa no espelho não é. Para o que acontece aqui não existe manual de sobrevivência, experiência ou preparo psicológico suficientes. Para o que acontece aqui só existe a fé.
Medula nova, porém não atuante. Agora tenho apenas 40 leucócitos, não é erro de digitação, são 40 leucócitos! Pulseira verde no braço e fotos na parede.
Queria estar em casa.
"(...)não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam." Salmos 23. 4b
A segunda parte da segunda saga da medula chega ao fim. A sessão de doação de medula foi cheia de emoção e gritos de vergonha misturados aos dois comprimidos de Diazepan que tiveram o efeitos maravilhosos de trinta minutos. Passados quase três acompanhantes: Titia Kátia Melo, cheia de disposição para subir as ladeiras da Bela Vista, Aline, igualmente disposta a participar do meu projeto Bandeirantes e agora Ádla, que eu prefiro pensar que não subiu as ladeiras porque não estava comigo.
Vão-se as acompanhantes, fica a paciente e então Lolota versão chapeuzinho vermelho volta a viver intensamente o mundo dos hospitais, cheios de tênis nada esportivos, frasqueiras e um pouco de disposição. Toti, a medulinha, tem os momentos de quietude, que totalizam vinte minutos diários, os quais presencio esperando a hora dele explodir por causa do tédio. Ele tem se esforçado muito. Pergunte a qualquer hiperativo se ele consegue ficar 12 horas sentado no mesmo lugar, com canais de tv limitados, um lápis e bloco branco. Isso explica as brigas pelo notebook.
Enquanto isso acontece eu imagino que a medula hiperativa está boiando dentro de mim e não fica quieta até a "pega". Mas acho que isso não compromete todo o planejamento desse procedimento.
Estou internada há duas semanas e todo dia olho pela janela e tem um vizinho querido que num sacrifício enorme toma banho de piscina e só sai quando os raios e trovões diários começam.
>>Ana, a arrumadeira do flat e personagem importante da saga fala com Má,outra arrumadeira, sobre a chuva em São Paulo, com um sotaque do interior: -Má, hoje eu vou mais cedo, você viu a chuva que 'tá' caindo, Má? Nooooossa! E o pessoal ainda inventa de fazer protesto na chuva, Má. Eles conseguem tocar fogo no ônibus na chuva, Má. Só aqui em São Paulo. Eles tocam fogo nos ônibus e culpam o prefeito pela chuva, vê se pode? Aí eu tenho que descer umas paradas antes e passar pelos trombadinhas, mas eu não gosto de chamar assim não, eles não são trombadinhas... só gostam de fazer umas coisas erradas de vez em quando.
Quando estava no metrô, Aulo, que está aqui há algum tempo contava como essa cidade é louca - Depois de um tempo aqui, você se acostuma, até acha que é um lugar comum. Mas aí acontece alguma coisa que te faz lembrar que vocâ está errado. E eu tenho uma sorte com essas coisas. No caso dele tinha sido um rapaz com intenções suicidas perto dos trilhos do metrô.
...
Foi doloroso reviver o lugar que eu queria esquecer. O quarto é idêntico, mas a pessoa no espelho não é. Para o que acontece aqui não existe manual de sobrevivência, experiência ou preparo psicológico suficientes. Para o que acontece aqui só existe a fé.
Medula nova, porém não atuante. Agora tenho apenas 40 leucócitos, não é erro de digitação, são 40 leucócitos! Pulseira verde no braço e fotos na parede.
Queria estar em casa.
"(...)não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam." Salmos 23. 4b
Comentários
O plano dele vai da certo!
Sempre dá!!
Se com Deus eu estiver
Nada, nada vou temer.
Quando meus opressores e meus inimigos me atacam
Tropeçam, voam ao chão
Se contra mim travarem
Uma batalha
Não terei medo algum
Ainda assim confio.
Se com Deus eu estiver
Não estarei sozinho.
Só peço a Deus uma coisa
Uma só eu procuro.
É habitar sua casa por toda minha vida.
E no dia da desgraça
Ele me esconderá
Sob sua tenda há de me esconder
E no rochedo mais alto
Minha fronte se erguerá
E ante meus inimigos cantarei a Deus.
Paráfrase de Gênesis 1
É por este e tantos outros motivos que costumamos dizer: só o Senhor é Deus, só o Senhor é Deus.